IESB 

Há vida inteligente na moda
Coordenador do curso de Tecnologia em Design de Moda mostra o que existe além das passarelas e diz que "a moda consistente precisa de um contexto e de referências"


Priscila Botão

Priscila Botão
Marco estuda o conteúdo da moda
O mundo da moda enfrenta vários preconceitos: o que vem à cabeça num primeiro momento é o glamour da vida das grandes modelos, as novas coleções feitas por estilistas famosos e muita futilidade. Mas essa não é uma verdade absoluta. O coordenador do curso de Tecnologia em Design de Moda do Iesb, Marco Antônio Vieira, 38 anos, pensa diferente. Ele se dedica a pesquisar as representações do corpo na moda, nas artes visuais e na literatura. Doutor em Teoria Literária pela UnB, Marco Antônio tem uma visão mais ampla do universo da costura. "Talvez para essas pessoas que vão como expectadoras aos desfiles o que existe realmente  é muito glamour e luxo. Mas a verdade é que o mundo da moda é um mundo de muito trabalho, muito afinco e muito suor", explica.

O que faz de Marco uma pessoa diferente é que ele pensa a moda e trabalha com coisas sutis. Apesar de achar que o mundo da moda não se dedica muito à reflexão - ao passo que essa reflexão é esperada no mundo da arte - ele acredita que há questões pertinentes aos dois mundos, como, por exemplo, a perfeição e o virtuosismo técnico. "A gente pode imaginar que haja alguma coisa da arte na moda sim, mas depende de pensar que arte seria essa, que moda seria essa. Não é qualquer arte, não é qualquer moda, são alguns aspectos da arte e alguns aspectos da moda", fala.

Marco Antônio é curador do Capital Fashion Week, fez palestra no último São Paulo Fashion Week e em sua última exposição como curador mostrou obras de artistas plásticos e designers no mesmo espaço, com o objetivo de aproximar a moda da arte. A exposição "Entre o texto e o têxtil: do nu ao invólucro" ficou no Espaço Cultural Contemporâneo do dia 29 de abril a 20 de maio. "O meu trabalho é despertar a criatividade de criadores. Há vida inteligente na moda", diz.

Uma de suas inspirações é a japonesa Rei Kawakubo, uma estilista radical que não costura, apenas transmite a idéia para a equipe do seu ateliê. Kawakubo não tem formação em moda e é responsável pela grife Comme des Garçons, que vende mais que todos os outros estilistas japoneses juntos. "A roupa dela é uma roupa altamente intelectualizada, extremamente revolucionária, muito inovadora, ao ponto de gerar incômodo", elogia Marco.

Segundo ele, o ser humano tem de natural a linguagem, e na moda a linguagem é visual, cheia de formas, de texturas, de tecidos e aviamentos. Essa linguagem é inserida em um contexto, que nos fascina com narrativas visuais. De acordo com o professor, não são as roupas isoladas que desejamos ao olhar um editorial de moda, mas sim "essas roupas inseridas dentro de um determinado contexto visual".

Afirmando que ainda falta educação de arte em nosso país, Marco pensa em uma reeducação do olhar, não só para a moda, mas também para as artes visuais; que os alunos do ensino fundamental e médio possam ser expostos a uma cultura visual que se encontra em museus e galerias. Ele ainda cita que a moda consistente precisa de um contexto e referências. "Um designer que não tenha referências, que não tenha repertório, é incapaz de conceber uma moda que seja instigante, atraente, interessante e questionadora", afirma. Roupas chatas, ou seja, roupas de massa, em sua opinião, já foram excessivamente banalizadas e saturadas, então a solução seria pensar na diversidade, com mais surpresa,  mais instigante e com uma paisagem mais plural. "Eu, na verdade, não luto pela abolição de nichos mais conservadores, eu apenas luto pela diversificação dessa paisagem", diz.

O curso de Tecnologia em Design de Moda do IESB segue a linha de pensamento do coordenador, fazendo com que o aluno coloque em prática uma educação do olhar, e se prepare para lidar com os desafios metodológicos de projetos em design de moda. "O IESB deseja ser percebido como uma instituição que dialoga com a contemporaneidade e, neste sentido, o curso de moda ue sintetiza o espírito institucional de inovação que marca todos os outros cursos", explica.

Publicado em 17/06/2008