Como parte das ações da Campanha Nacional de Doação de Órgãos (27 de setembro a 12 de outubro) a Central de Notificação, Captação e Distribuição de Órgão de Brasília realizou no dia 04 de outubro o cadastro de potenciais doadores de medula óssea, no Parque da Cidade. O interesse de ser doador e compor o Registro Nacional de Doadores Voluntários de Medula Óssea - Redome, foi firmado por dezenas de pessoas que passavam pelo local. O procedimento inicial se deu com a coleta 4 ml de sangue para teste de compatibilidade HLA. Quando aparece um doador compatível com um paciente, ele é convocado para novos exames. No Brasil, esse tipo de doação é de extrema dificuldade, pois só há um doador compatível para um grupo de 100 mil possíveis doadores e o Redome consta com apenas 750 mil cadastros.
Segundo Célia Kyoco Yamagushi, coordenadora do Banco de Órgãos de Brasília, caso a busca por doadores de medula óssea para um brasileiro fosse feita no âmbito internacional as chances de compatibilidade seriam ainda mais difíceis: cerca de um doador em um milhão. "O povo brasileiro é muito miscigenado", afirma. Nos últimos seis anos, 1562 transplantes de medula óssea foram realizados no Brasil, nenhum em Brasília. Atualmente, 2063 pessoas estão em lista de espera. A medula óssea é a matriz do sangue, localizada na parte interna dos ossos. Nela estão as células-mãe que dão origem aos glóbulos vermelhos e brancos e às plaquetas. Pessoas que têm doenças que comprometem a produção de sangue pela medula, como leucemia e aplasia da medula óssea, são favorecidas por essa doação.
O Brasil conta com o segundo maior programa público de transplante do mundo, atrás apenas da Espanha. No entanto, a Espanha possui 33,8 doadores por milhão de habitantes, e a situação nacional é de 5,8. Para Célia Yamagushi, uma das explicações é a pouca divulgação dos trabalhos desenvolvidos e falta de adesão popular. "Faltam mais campanhas, normalmente só é feita uma por ano. Isso acontece por falta de recursos, de pessoal, etc. É preciso conscientizar também os profissionais de saúde em atividade e em formação sobre a importância da doação de órgãos", acrescenta.
Com o slogan: "Não deixe escapar das suas mãos a oportunidade de salvar vidas: doe órgãos, doe vida", a campanha nacional tem por objetivo sensibilizar a população e os profissionais de saúde para a necessidade da notificação de morte do cérebro, quando os órgãos a serem doados devem ser aproveitados ainda com circulação sanguínea. A atual legislação brasileira de transplantes, de 2001, substituiu a manifestação de vontade de doação de órgãos e tecidos, que constavam na Carteira de Identidade Civil e Carteira de Habilitação, para a autorização familiar, instância suprema nessa decisão.
| Daniella Ribeiro |
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| Vanir espera há 4 meses por transplante de coração |
A espera por transplante como única alternativa
Cerca de 71 mil pessoas estão em lista de espera por um transplante no Brasil. Segundo o Ministério da Saúde, de 2001 a junho 2007, foram realizados 87.444 transplantes pelo Sistema Único de Saúde (SUS).
A professora de Filosofia Marilene Curado Albernez, 40 anos, teve a vida transformada por um problema de saúde desconhecido por ela e pelos médicos. Há cerca de dois anos atrás, com saúde estável, a professora passou por um período de muita fragilidade, que culminou no coma e internação na Unidade de Tratamento Intensivo - UTI. O laudo descobriu um problema renal em fase terminal. Desde então, Marilene afastou-se da profissão e vive somente para tratar da saúde. "São três sessões de hemodiálise por semana, com duração de 4 horas cada uma", conta. De família pequena, ela não tem nenhum doador de rim compatível e espera há um ano e quatro meses na lista do Distrito Federal. "A falta de informações da população prejudica o funcionamento do programa de transplantes", conclui.
O mineiro do interior Domingos Antônio da Cunha, 53 anos, sofria há 35 anos de Doença de Chagas. Nos últimos 5 anos a doença se agravou "Fiquei em cadeira de rodas, dependendo de terceiros, sendo carregado. Foram anos bastante delicados, terríveis. Mas graças a Deus entrei na fila de transplante do Instituto do Coração - Incor, aguardei apenas 4 meses na fila, tive a oportunidade e fui transplantado. Hoje sou uma pessoa normal". Os pacientes que são transplantados têm a orientação médica e psicológica de não conhecerem a família e a história do doador. No caso de Domingos, ele sabe apenas que quem doou o coração foi um morador de Ceilândia.
Assim como aconteceu com Domingos Cunha, Vanir Henrique da Silva, de mesma idade e também vítima de chaguismo, conviveu com a doença por 15 anos até seu estado se agravar bastante. O tratamento médico de Vanir depende da lista de espera do transplante de coração. "São quatro meses de expectativa, de luta e esperança. Vários colegas que fazem acompanhamento no Incor também me dão força". Nesses últimos meses, Vanir não consegue fazer atividades físicas e é cautelosamente observado pela família e médicos. "É preciso apoio da parte política, dos governantes, para divulgar a campanha, porque a população é muito ignorante na área de doação".
O ministro da Saúde, José Gomes Temporão, anunciou um conjunto de medidas para tentar elevar o número de doações no país. Tais como: o reajuste dos valores pagos às equipes de transplantes dos hospitais, bonificação de 100% para os procedimentos que resultem efetivamente em transplante, criação de Organizações de Procura de Órgãos (OPOs) e padronização do gerenciamento de transplantes em todo o Brasil.
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