SAÚDE 

Baixa adesão popular prejudica doação de órgãos
Campanha cadastra potenciais doadores na cidade. No país, 2063 pessoas estão em lista de espera para transplante de medula


Daniella Ribeiro De Sousa

Daniella Ribeiro
Duas vidas: Domingos recebeu novo coração
Como parte das ações da Campanha Nacional de Doação de Órgãos (27 de setembro a 12 de outubro) a Central de Notificação, Captação e Distribuição de Órgão de Brasília realizou no dia 04 de outubro o cadastro de potenciais doadores de medula óssea, no Parque da Cidade. O interesse de ser doador e compor o Registro Nacional de Doadores Voluntários de Medula Óssea - Redome, foi firmado por dezenas de pessoas que passavam pelo local. O procedimento inicial se deu com a coleta 4 ml de sangue para teste de compatibilidade HLA. Quando aparece um doador compatível com um paciente, ele é convocado para novos exames. No Brasil, esse tipo de doação é de extrema dificuldade, pois só há um doador compatível para um grupo de 100 mil possíveis doadores e o Redome consta com apenas 750 mil cadastros.

Segundo Célia Kyoco Yamagushi, coordenadora do Banco de Órgãos de Brasília, caso a busca por doadores de medula óssea para um brasileiro fosse feita no âmbito internacional as chances de compatibilidade seriam ainda mais difíceis: cerca de um doador em um milhão. "O povo brasileiro é muito miscigenado", afirma. Nos últimos seis anos, 1562 transplantes de medula óssea foram realizados no Brasil, nenhum em Brasília. Atualmente, 2063 pessoas estão em lista de espera. A medula óssea é a matriz do sangue, localizada na parte interna dos ossos. Nela estão as células-mãe que dão origem aos glóbulos vermelhos e brancos e às plaquetas. Pessoas que têm doenças que comprometem a produção de sangue pela medula, como leucemia e aplasia da medula óssea, são favorecidas por essa doação.

O Brasil conta com o segundo maior programa público de transplante do mundo, atrás apenas da Espanha. No entanto, a Espanha possui 33,8 doadores por milhão de habitantes, e a situação nacional é de 5,8. Para Célia Yamagushi, uma das explicações é a pouca divulgação dos trabalhos desenvolvidos e falta de adesão popular. "Faltam mais campanhas, normalmente só é feita uma por ano. Isso acontece por falta de recursos, de pessoal, etc. É preciso conscientizar também os profissionais de saúde em atividade e em formação sobre a importância da doação de órgãos", acrescenta.

Com o slogan: "Não deixe escapar das suas mãos a oportunidade de salvar vidas: doe órgãos, doe vida", a campanha nacional tem por objetivo sensibilizar a população e os profissionais de saúde para a necessidade da notificação de morte do cérebro, quando os órgãos a serem doados devem ser aproveitados ainda com circulação sanguínea. A atual legislação brasileira de transplantes, de 2001, substituiu a manifestação de vontade de doação de órgãos e tecidos, que constavam na Carteira de Identidade Civil e Carteira de Habilitação, para a autorização familiar, instância suprema nessa decisão. 

Daniella Ribeiro
Vanir espera há 4 meses por transplante de coração
A espera por transplante como única alternativa

Cerca de 71 mil pessoas estão em lista de espera por um transplante no Brasil. Segundo o Ministério da Saúde, de 2001 a junho 2007, foram realizados 87.444 transplantes pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

A professora de Filosofia Marilene Curado Albernez, 40 anos, teve a vida transformada por um problema de saúde desconhecido por ela e pelos médicos. Há cerca de dois anos atrás, com saúde estável, a professora passou por um período de muita fragilidade, que culminou no coma e internação na Unidade de Tratamento Intensivo - UTI. O laudo descobriu um problema renal em fase terminal. Desde então, Marilene afastou-se da profissão e vive somente para tratar da saúde. "São três sessões de hemodiálise por semana, com duração de 4 horas cada uma", conta. De família pequena, ela não tem nenhum doador de rim compatível e espera há um ano e quatro meses na lista do Distrito Federal. "A falta de informações da população prejudica o funcionamento do programa de transplantes", conclui.

O mineiro do interior Domingos Antônio da Cunha, 53 anos, sofria há 35 anos de Doença de Chagas. Nos últimos 5 anos a doença se agravou "Fiquei em cadeira de rodas, dependendo de terceiros, sendo carregado. Foram anos bastante delicados, terríveis. Mas graças a Deus entrei na fila de transplante do Instituto do Coração - Incor, aguardei apenas 4 meses na fila, tive a oportunidade e fui transplantado. Hoje sou uma pessoa normal". Os pacientes que são transplantados têm a orientação médica e psicológica de não conhecerem a família e a história do doador. No caso de Domingos, ele sabe apenas que quem doou o coração foi um morador de Ceilândia.    

Assim como aconteceu com Domingos Cunha, Vanir Henrique da Silva, de mesma idade e também vítima de chaguismo, conviveu com a doença por 15 anos até seu estado se agravar bastante. O tratamento médico de Vanir depende da lista de espera do transplante de coração. "São quatro meses de expectativa, de luta e esperança. Vários colegas que fazem acompanhamento no Incor também me dão força". Nesses últimos meses, Vanir não consegue fazer atividades físicas e é cautelosamente observado pela família e médicos. "É preciso apoio da parte política, dos governantes, para divulgar a campanha, porque a população é muito ignorante na área de doação".  

O ministro da Saúde, José Gomes Temporão, anunciou um conjunto de medidas para tentar elevar o número de doações no país. Tais como: o reajuste dos valores pagos às equipes de transplantes dos hospitais, bonificação de 100% para os procedimentos que resultem efetivamente em transplante, criação de Organizações de Procura de Órgãos (OPOs) e padronização do gerenciamento de transplantes em todo o Brasil. 

Publicado em 21/10/2008