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PRODUÇÃO ACADÊMICA
Rei da Derivada
por: Angely Pinheiro .

Thiago Raposo ingressou no curso de Engenharia Elétrica em 2004. No segundo semestre de 2007, foi consagrado como o Rei da Derivada por meio do campeonato Rei da Derivada - Porque a vida é injusta.  O torneio foi criado para auxiliar os alunos do curso de Engenharia na matéria Cálculo Diferencial, isto é, Derivadas.

Revista Cirp - Qual foi o seu primeiro contato com o projeto Rei da Derivada e qual era a sua percepção antes de conhecer o projeto?

Thiago Raposo - Meu primeiro contato direto com o projeto foi na própria edição em que participei no 1º semestre de 2007. Apesar disso, eu já sabia de sua existência bem como sua eficácia em relação à melhora do desempenho dos alunos de Cálculo. Sempre tive em mente algo positivo e inovador, mas até então não imaginava que, um dia, o projeto viesse a se tornar uma competição com tais dimensões.

Revista Cirp - Segundo a professora do curso de Engenharia Elétrica, Patrícia Moscariello, você é considerado um aluno de notas 10. Se não foi pela nota, o que te atraiu para participar do campeonato?

Thiago Raposo - Não concordo que tirar boas notas desobrigue alguém de participar de tais projetos. Muito menos que notas baixas obriguem alguém a participar. O que atraiu não só a mim, mas acredito que praticamente a todos os participantes, foi a idéia de uma reunião descontraída, que independente dos resultados, proporcionaria a socialização dos alunos de uma forma bem humorada, como em um jogo de futebol num final de semana.

 

Revista Cirp - A medida com que o projeto se desenvolveu, sua percepção mudou? Adquiriu novos elementos, sejam humanos, sejam técnicos, sejam intelectuais? O que você percebeu ao longo do projeto?

Thiago Raposo - Ambientes de competição fornecem uma boa percepção da personalidade de cada um que está competindo. Na verdade, não só dos alunos que competem, mas também dos professores que se envolvem diretamente. Certa vez disse Hilbert, matemático do século XIX, que o valor de um matemático consiste na habilidade de trocar pontos. É mais ou menos isso que acontece ao longo da competição. Esta é uma capacidade que engenheiros e cientistas precisam e utilizam, e é também um buraco na formação dos alunos brasileiros. Nesse aspecto, pode-se perceber uma evolução em cada aluno que participa da competição. Eu mesmo penso que melhorei em relação ao cálculo de derivadas.

 

Revista Cirp - Quanto aos aspectos humanos e sociais, como é o projeto?

Thiago Raposo - No decorrer do projeto, é fácil notar que o essencial consiste na alegria e na união dos participantes, tanto dos alunos quanto dos professores, pois todos se reúnem em torno de um mesmo assunto, a derivada. É claro que a competição é um fator importante, e isso é uma conseqüência direta do fato de que apesar de o projeto ser uma grande brincadeira, o bom humor não é confundido com a frivolidade. O projeto tem um objetivo muito sério, sendo simultaneamente cômico. Este é o seu valor.

  

Revista Cirp - Quanto a aspectos técnicos, como é percebida a evolução de cada aluno inscrito na atividade e como é medida essa evolução?

Thiago Raposo - Nas primeiras fases os alunos competem em duplas, e essas duplas são trocadas até que todas as combinações ocorram. Aqueles alunos que somam menos pontos são então eliminados. Repete-se esse processo sucessivamente, até a última fase, onde sobram somente quatro alunos que competem individualmente. Ao final, aquele que não for eliminado em nenhuma etapa se torna o Rei da Derivada e o último que foi eliminado, o segundo colocado, se torna o Mago da Derivada. Contudo, a evolução mais importante é aquela que se reflete no desempenho dos alunos ao longo do curso, e esta é a evolução que deve ser valorizada e incentivada.

 

Revista Cirp - O que você percebeu quanto às mudanças mais efetivas na maneira de ser dos participantes? 

Thiago Raposo - As maiores mudanças são sociais. Após a competição, o curso de Engenharia já não consistia mais em várias turmas separadas que raramente se comunicavam, mas sim de um grupo que cursava Engenharia, distribuído em várias turmas. As conversas não se referiam somente a assuntos do próprio curso nem ocorriam somente em vésperas de provas. Tornou-se então mais comum ver grupos maiores com alunos de diferentes turmas andando pelo IESB.

 

Revista Cirp - Quanto a você, quais foram as transformações que observou em seu cotidiano, do começo do curso até o concurso em que se tornou Rei?

Thiago Raposo - Como disse anteriormente, houve uma mudança decorrente da socialização dos alunos, e eu certamente estou inserido neste processo. Muitos alunos, principalmente aqueles que ingressaram há pouco tempo no curso, têm a concepção de que o Rei da Derivada é alguém muito inteligente. Isto é obviamente uma besteira, pois além de que todos que fizerem um mínimo de esforço, é claro, chegarão ao término do curso, penso que a maioria, senão todos que participaram do Rei da Derivada tinham plenas condições de vencer a competição. Não admiro a idéia de uma pessoa ser melhor que outra e penso que esta concepção de comparação somente atrapalha qualquer tipo de sociedade, em todos os aspectos.

 

Revista Cirp - Quais foram as personalidades mais marcantes com as quais teve contato ao longo do projeto?

Thiago Raposo - Ocorreram situações cômicas em que alunos, que não haviam escrito sequer uma letra no quadro, passaram adiante na competição em contraste com alguns, que mesmo com esforço para não errar uma conta, acabavam eliminados pelos primeiros. Houve um caso particular de um aluno que chegou à penúltima etapa, com apenas oito alunos, à custa de cada dupla que acertava por ele. Ocorreram também alguns estresses, onde alunos não concordavam com o método rigoroso de correção ou com a pontuação final.

 

Revista Cirp - Você acha que a premiação - o vencedor ganhou equipamento de informática - é fator propulsor do concurso?

Thiago Raposo - Sim. Contudo, não se trata apenas da premiação, mas sim da importância que o concurso tem.

 

Revista Cirp - Como porta-voz do concurso, o que você faria para expandir o sucesso do projeto para que mais pessoas, até mesmo de outros cursos, possam usufruir do mesmo prestígio que conquistou?

Thiago Raposo - A verdade é que existe um abismo entre sociedade e ciência, bem como entre sociedade e arte. Penso que é importante que quaisquer profissionais de áreas distintas enxerguem a importância de ambas as profissões. A capacidade de se comunicar é o que uma sociedade tem de mais importante, pois permite que, seja verbalmente ou pela escrita, transmitamos aquilo que sabemos ou que não sabemos.

Para expandir o projeto, a faculdade poderia fazer um Rei da Derivada Intergaláctico ou Rei da Derivada Cósmico com a possível participação de outras faculdades. Já foram discutidas também idéias sobre um torneio Rei da Derivada Virtual, pela internet, onde os usuários somariam pontos, variando então sua posição num Ranking.