Entrevistas





Cleber Augusto
 

Ruy Guerra, vida e obra

Em entrevista ao NaPrática, cineasta fala sobre infância e adolescência em Moçambique, o envolvimento com a política e a experiência do Cinema Novo

Cleber Augusto

 

Ruy Guerra, um dos cineastas pioneiros do Cinema Novo, esteve em Brasília nos dias 03 e 04 de outubro para participar da abertura de uma mostra em sua homenagem. Ruy Guerra, Filmar e Viver, realizada pelo Centro Cultural Banco do Brasil, reúne todos os filmes, documentários e curtas do diretor, como os premiados Os Fuzis (1963), Os Cafajestes(1962) e Kuarup (1989).

Entre as várias indicações a premiações, Ruy Guerra recebeu em Brasília, em 1970, o Prêmio de Melhor Filme - O Candango de Ouro - por Os Deuses e os Mortos. Em Cuba, em 1986,  ganhou o Prêmio Especial do Júri do Festival Latino-Americano por Ópera do Malandro, e foi premiado duas vezes com o Urso de Prata, Prêmio Especial do Júri em Berlim (Alemanha), por Os Fuzis (1964), e A Queda (1978).

Guerra também atuou como ator. É compositor, montador e roteirista. Produziu filmes ao lado de nomes importantes do cinema nacional como Glauber Rocha e Nelson Pereira dos Santos. Adaptou obras literárias de Gabriel Garcia Márquez (Eréndira e A Bela Palomera), e em parceria com Chico Buarque dirigiu o musical “Ópera do Malandro” (1985), a peça teatral “Calabar” e adaptou para o cinema o livro “Estorvo” (2000). “Tem que se procurar um motivo pelo qual você adapta a obra literária, que é completamente diferente da obra cinematográfica. No caso do “Estorvo” o que me interessou muito foi a maneira de contar a história, a mistura do plano do real com o imaginário, e com o inventado pelo personagem”, explica.

Nascido em Maputo, Moçambique, começou a filmar na adolescência. Aos 16 anos produziu sua primeira filmagem em 8mm, Cais Gorjão, obra política e que revelou desde cedo seu interesse por temáticas sociais e conflitos ideológicos. Veio para o Brasil em 1958, convidado a dirigir um filme. Hoje mora no Rio de Janeiro, onde dirige o Curso Superior de Cinema na Universidade Gama Filho.

Em entrevista exclusiva ao NaPrática, Ruy Guerra falou sobre sua vida e obra.

Na Prática: Fale um pouco sobre sua infância e adolescência em Maputo e o envolvimento com movimentos políticos.

Ruy Guerra: Fui criado por uma escrava, uma negra, que para mim sempre foi uma mãe. Não conseguia compreender o processo colonial, a escravidão e o racismo em meu país. Então, sempre estive envolvido em questões políticas desde a infância. Evidentemente eu comecei a ser enquadrado politicamente na adolescência porque tinha amigos negros, mulatos e indianos, o que não era bem visto. Comecei a escrever e me manifestar politicamente contra o sistema colonial. Aos 16 anos fiz um curta em 8mm chamado Cais Gorjão, que retratava a vida dos trabalhadores negros escravos. Filmava-os descansando debaixo de vagões, dormindo sob trens. Aquelas imagens me lembravam campos de concentração. Escrevi também um conto em homenagem à minha mãe de criação chamado “Negra Rosa” e novamente fui preso, não admitiam o fato de eu considerar uma mulher negra minha mãe. Portanto muito cedo fiquei mal visto, além de ser enquadrado em um processo político. Tive problemas ao sair de Moçambique para Portugal. Em decorrência do processo movido contra minha pessoa fui algemado e preso em Lisboa.

Na Prática: Como foi o episódio da sua prisão? Em Portugal te associaram aos movimentos militantes de libertação e independência nacional de Moçambique? E a respeito das imagens de Cais Gorjão?

Ruy Guerra: Certamente eles me associaram a movimentos militantes, principalmente pelo teor das minhas filmagens. As imagens sobre o cais foram confiscadas ainda em Moçambique, no momento em que instauraram a polícia política, a PID, que quis demonstrar serviço através de perseguição políticas.

Na Prática: Você foi perseguido pela PID?

Ruy Guerra: Sim. Tínhamos u

publicado em 17/10/2006