A missionária Elza Lopes passou oito anos morando com índios caiuá, terena e guarani, longe do conforto da civilização. Ela conta que era tinha o sonho de ajudá-los a ter uma qualidade de vida melhor. Aos 27 anos se aventurou rumo ao Mato Grosso do Sul, encontrou índios nus, línguas diferentes, costumes intrigantes e uma mata cheia de cobras que lhe causavam pânico.
Teve contato com uma cultura fascinante. Em cada local descobria um costume diferente. Cada índio era único - eles sempre a surpreendiam. Em Dourados ela trabalhou com 2.7 mil índios, em Porto Lindo com 500 e em Amambai com 1.5 mil. Hoje, aos 49 anos, conta que valeu a pena. "Fui com o intuito de ensinar algo aos índios, mas acabei aprendendo com eles". Ela diz ainda que sente saudades e sonha em voltar à tribo e ali terminar seus dias.
Repórter: Qual foi a razão que a levou para trabalhar com índios?
Elza:Tive uma razão específica, a espiritual. Eu acreditava que com meu conhecimento poderia ajudá-los a ter uma qualidade de vida melhor. A missão tem um trabalho paralelo com a educação. Como professora alfabetizadora eu estava contribuindo para que os índios mudassem de vida, uma vez que a civilização tinha influenciado o comportamento deles. Sendo assim, não dava mais para eles viverem ali isolados, a cultura tinha se desestruturado, e eu acreditava que sendo alfabetizados eles podiam se defender diante da cultura branca.
R.: Como era para se comunicar na tribo?
E.: A princípio eu tinha um intérprete que me ajudava. À medida que fui conhecendo, fui assimilando a língua, no convívio diário e dentro de sala de aula, aprendendo com os próprios alunos. Fazíamos uma troca, como eu era alfabetizadora do guarani, e eles tinham uma língua que só falavam, mas não escreviam, eu ensinei eles a escrever a própria língua e eles me ensinaram a falar.
| Thallyta Chayane |
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R.: Qual costume dos índios que mais lhe fascinou?
E.:Na educação é interessante, é uma cultura matriarcal. Quem dá a última palavra são as mulheres. O homem é a figura da defesa física da mulher, ele não planta roça, não carrega peso, a função dele é somente defender a esposa dos perigos da floresta. O homem não tem a preocupação de trabalhar ele só fica à espreita dos infortúnios que possam vir, como se fosse um guardião. Outra questão interessante é que os filhos não são educados pelos pais e sim pelos avós. Eles jamais levantam a voz para uma autoridade, e não falam alto. Falar alto para eles é uma afronta, um desrespeito. Quando alguém o faz, eles ficam extremamente ofendidos. Aconteceu de eu chamar a atenção falando o nome de um índio num tom mais alto na classe e ele não voltar à escola. Fui na casa dele para entender por que o fulano não estava indo à escola. Como eu ainda não entendia o costume deles, me explicaram que ele não voltava à escola por que eu havia gritado com ele, que se sentiu profundamente envergonhado e humilhado. Os índios não gritam nem aceitam o confronto de gritos. Ao contrário das crianças aqui, eles lá me davam muito mais respeito do que na chamada civilização.
R.: E o fato de eles estarem nus, a assustou?
E.:Bem, a roupa é olhada por eles como um enfeite, como a gente usa um colar uma pulseira, eles usam a roupa para ficar mais bonito. Então, quando eles não têm necessidade, nenhum compromisso como ir à cidade algo assim eles ficam sem roupa. No início eu achava que era uma afronta, um desrespeito a mim. Mas eles me tratavam tão bem, que percebi que para eles o fato de estar nu não mudava nada. Outras atitudes para ele representam a falta de moral. Por exemplo, olhar nos olhos de outra mulher é falta de respeito, mas estar nu não significa nada. Eu vestia as minhas roupas e eles entendiam que a minha cultura não me permitia ficar nua. Se eu ficasse nua eles estranhariam, então eles me achavam normal com a roupa, pois eu era de outra tribo. Quando eu ia na casa deles e estavam sem roupa, eles queriam se vestir em respeito a mim. Então eu dizia que não era necessário, que podiam ficar à vontade. Até por que se eles se vestissem por respeito a mim, em algum momento por respeito a eles eu teria que tirar. Então eu dizia não eu fico com minha roupa e você do jeito que preferir.
R.: Algum costume dos índios lhe causou espanto ou estranheza?
E.: Achei estranho quanto a morte. São sete de dias de festa e de dança para que a alma do ente querido alcance os céus. Eles enterram não em uma vala, mas em apenas um corte raso na terra, e todos os pertences do índio são jogados na sepultura. Também queimam a casa, para que todos os espíritos daquela pessoa ir embora junto com ela.. E depois constroem outra casa à uma distância de dois metros pois a casa do falecido não serve para mais ninguém morar. No início achei muito complicado, todo dia eles queimando casa e construindo casa.
R.: Estar em uma cultura diferente, muitas vezes rende fatos engraçados. A senhora se recorda de algum?
E.: Tiveram muitos, os mais engraçados foram quando eu estava aprendendo a língua deles, por exemplo eu ia dizer fechem os olhos e falava um palavrão. Outra que eu fiz muito como professora, ia pedir para o menino sentar e mandava ele para o banheiro. O que de vez em quando trazia certo constrangimento. Certa vez, um índio perdeu a esposa e foi me buscar para a substituir. Não foi só engraçado, foi meio trágico para mim, pois eu não estava preparada para ser substituta, nem para casar, nem para ficar com homem nenhum. Essa foi uma saia justa para mim. Consegui contornar a situação dizendo ao índio que eu teria que conversar com minha chefia imediata, que não poderia ir com ele naquela hora. Ele insistiu dizendo que tinha ido me buscar para me levar a oca dele e me fazer por mulher, eu disse a ele que não, eu já tinha a minha oca e que eu não podia ir, pois já tinha um compromisso na minha cidade. Mas eles não entendiam por que uma pessoa com compromisso estaria na aldeia sozinha, para eles eu era alguém disponível. No outro dia o pastor, juntamente com um intérprete explicou a ele dizendo: "olha na cultura dela para vocês se casarem, você deve pedir permissão a família. Se você levá-la pra oca eles vem aqui fazer guerra com a tribo."
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