Resistência identitária: Aluna emociona com relato sobre representatividade

Kamala Harris, 55 anos, mulher e negra, fez história ao se tornar a primeira vice-presidenta dos EUA, no último final de semana. Fez história e trouxe um sentimento importante: a representatividade. A subjetividade na identidade feminina de que outras mulheres também podem chegar lá. Bruna Eduarda dos Santos, 20 anos, aluna do 4° semestre de Serviço Social, cresceu sem referências negras, procurou se encaixar em um padrão dominante onde a mulher branca, cis, hétero, magra e de cabelo liso é melhor aceita, mas, hoje, após se reencontrar, solta o verbo sobre a importância da resistência identitária.

"A diversidade é resistência! E se hoje temos mais espaços que no passado é por que alguém foi resistência antes que eu nascesse. Então eu não saio empoderada na rua só por mim, mas pelas gerações futuras."Bruna emocionou amigos e professores com um relato sobre representatividade, ancestralidade e desconstrução na página do Instagram do curso de Serviço Social. No texto, ela falou sobre a vivência como mulher preta e o processo para entender seus traços enquanto herança, e como isso a enche de orgulho.

Durante a infância, Bruna sofreu com sentimentos de não pertencimento, por não encontrar rostos como o seu nos espaços de voz e poder. “Se eu sou a única diferente então eu estou errada, tem algo de errado comigo. Quando se é uma criança ou quando se é alguém que não tem esse conhecimento, você nunca pensa que o problema está nas pessoas. Você vai pensar que o problema está em você”, conta.

“Sendo uma mulher preta, eu passei por várias fases de descobertas na minha vida , e muitas pessoas tiveram um papel muito importante." Nesse cenário, ela encontrou ponto de apoio e referência na atriz global Taís Araújo. “Eu me encontrava nela, eu via ela ali e eu admirava”, diz.

“À medida que eu fui crescendo, fui estudando, tendo mais mulheres fortes na minha vida, mais mulheres como referência, e isso foi me mudando e me moldando de uma forma completamente diferente. Por mais que eu visse uma mulher negra na televisão e pra mim fizesse todo sentido, as mulheres com as quais convivia no meu dia a dia e conversava de forma íntima eram muito mais importantes. E até hoje elas são”, completa.

Para Bruna, representatividade é você poder se sentir similar ao outro, é você ser visto como uma referência, como um ponto de força, como uma estrutura, porque essa é a representatividade. "Foi por meio dessa representatividade que eu me afirmei, que eu descobri a minha identidade e que hoje eu valorizo tudo o que eu tenho. Eu valorizo os meus traços, eu valorizo o meu tom de pele, eu valorizo o meu cabelo porque eu nasci assim e tudo isso pra mim é uma herança ancestral que eu tenho, que a gente recebeu, que tem uma história por trás de muita luta, de muita resistência”, justifica.

Confira o relato:

"Vivemos em uma sociedade capitalista que tem e que busca incessantemente por uma padronização dominante: branca, cis, hétero, magro, cabelo liso, entre outras coisas. E dentro desses espaços de dominação, aqueles que não se encaixam são estigmatizados e buscam meios de se encaixar. Eu como uma mulher preta expressei essa forma de "camuflagem" nos meus cabelos, eu achava que seria mais bonita ou mais aceita, eu tinha vergonha do meu "cabelo duro." Com o tempo eu quase fiquei careca e aí o meu desejo de ter o meu cabelo do jeito que ele era cresceu, hoje eu percebo que não era só cabelo ou estilo, mas uma forma de resistência identitária perante a sociedade. Ainda me lembro do medo de não ser aceita, da vergonha por estar muito alto [o cabelo]. Mas a medida que eu resistia às críticas eu fui descobrindo uma nova Bruna, entendi que me acho muito melhor agora, muito mais completa.

Eu sou uma mulher preta afrodescendente. O meu cabelo é uma herança!

Os meus traços são uma herança!

A versatilidade de poder mudar os meus cabelos também!

Me orgulho disso, por que eu posso ser o que eu quiser ser!

Foi através desses processos de mudança que me descobri enquanto mulher preta e dos desafios, direitos, e pautas que cruzam a minha vida diariamente.

A diversidade é resistência! E se hoje temos mais espaços que no passado é por que alguém foi resistência antes que eu nascesse. Então eu não saio empoderada na rua só por mim, mas pelas gerações futuras.

Pra poder ser representatividade!"

Por Vitórian Tito



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