Foi quase sem querer

Publicado em 25 de julho de 2018

Proprietária e reitora do Iesb, Eda Machado nunca sonhou em ter uma universidade. Foi o amor ao ensino que a levou naturalmente a este caminho. Agora, mira o ensino fundamental

Por MARINA ADORNO – Especial para o Correio Braziliense 

Proprietária e reitora do Iesb, Eda Machado nunca sonhou em ter uma universidade. Foi o amor ao ensino que a levou naturalmente a este caminho. Agora, mira o ensino fundamental

A educadora Eda Machado, 79 anos, é conhecida na cidade por ser proprietária e reitora do Centro Universitário Iesb. O que muitos não sabem é o longo caminho que ela percorreu para conseguir esse reconhecimento. De origem mineira, Eda formou-se na Escola Normal, em Socorro (SP). Dez dias após a formatura, se casou. Com problemas financeiros, o casal partiu para Arapongas, no Paraná, em busca de melhores condições de vida.

Recém-chegada à cidade, Eda logo foi convidada para dirigir uma escola de ensino fundamental. Também criou a biblioteca pública de Arapoangas e, depois, foi chamada para coordenar um programa na zona rural. “Fiquei lá até 1965, quando comecei a ser perseguida, porque achavam que eu era subversiva”, relata.

Simultaneamente, os dois chefes dela vieram para Brasília trabalhar no Ministério da Educação. Eles participariam da criação do Centro Integrado de Ensino Médio da UnB e convidaram Eda para a empreitada. Já desquitada, ela veio com a filha.

“O Ciem foi a experiência mais bonita que eu tive na vida em termos de educação.”

Chegou a Brasília em janeiro de 1966 para ser assistente do diretor do Ciem. Por ser mais nova que muitos professores, sofreu um pouco de resistência, mas rapidamente se integrou à equipe. Sua função principal era atender os alunos, com os quais, garante, tinha ótimo relacionamento. Dentre eles, nomes conhecidos de Brasília: Paulo Otávio, Fernando Collor, Luiz Estevão e Honestino Guimarães. 

Na época, segundo Eda, havia um medo de se manifestar publicamente devido ao regime militar. Alguns, no entanto, não cediam. Caso de Honestino. “Me lembro de falar para ele: ‘Honestino, tem hora que a gente tem que recuar. Esse povo vai te matar’. E ele dizia que não iria fazer isso, que aquela era a causa dele”, relembra.

Eda já tinha um curso superior em biblioteconomia da PUC Campinas, mas quis buscar outra formação na UnB. A vontade dela era cursar pedagogia, porém o curso ainda não existia na Universidade de Brasília. Ingressou, então, em psicologia. “Eu não escolhi muito os meus caminhos. Parece que as pessoas escolhiam por mim”, afirma. 

Quando estava prestes a se formar em psicologia, o curso de pedagogia foi aberto. Eda conseguiu migrar, se formou como pedagoga e foi convidada a dar aulas na UnB. Em 1971, o vice-reitor José Carlos Azevedo optou por fechar o Ciem e demitiu 28 mestres — entre eles, Eda. 

Entretanto, na hora que ela estava saindo da Faculdade de Educação o diretor da FE, Paulo Guimarães, disse que iria indicá-la para uma bolsa nos Estados Unidos. A professora estudou inglês durante um ano com o auxílio de fitas cassete e conseguiu a bolsa. Durante dois anos, estudou na Universidade do Estado da Pensilvânia. Voltou como mestre e doutora e foi trabalhar na Unicamp.

De volta a Brasília
O retorno para Brasília veio depois de uma indicação para coordenar um programa na Capes sobre melhoria do ensino nas universidades brasileiras. Ficou lá por 16 anos, saiu para coordenar a área internacional do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) por dois anos. “Era uma experiência desafiadora para mim”, afirma.

Em 1994, foi anistiada pela UnB, se aposentou do CNPq e retornou para a Universidade de Brasília. Voltou a dar aulas. “Eu queria uma vida mais tranquila, estava em uma fase mais família”, explica a professora.

Eda garante que criar uma instituição de ensino nunca esteve em seus planos. O Iesb surgiu quase por acaso. Eda e o segundo marido, Edson Machado, foram convidados pelo amigo e atual senador, Pedro Chaves, para passar a Semana Santa no Mato Grosso do Sul. 

“Ele tinha uma faculdade que ia se transformar em universidade e nos chamou para trabalhar lá com ele. O Edson como reitor e eu como pró-reitora de graduação. Recusamos o convite, porque não queríamos ir embora de Brasília.” Então, Pedro propôs criar uma faculdade em Brasília e Eda topou. O projeto demorou cinco anos para ser aprovado pelo MEC.

Em 1998, Pedro optou por sair da sociedade e a educadora se viu sem saída, porque não teria dinheiro para tocar o projeto. Alugou um prédio na 902 Sul, pintou, pegou quadros e tapetes da sua casa para decorar a faculdade. Quando perguntavam de quem era a nova instituição de ensino, ela desconversava. 

“Eu sabia do preconceito com as mulheres. Se eu falasse que era minha, iam duvidar, falar que não iria pra frente”, comenta. Durante um ano, especulavam quem seria o dono e Eda chegou a ser “acusada” de ser laranja no Iesb. Só assumiu a verdade em 2001, para os alunos, e deixou que a notícia se espalhasse aos poucos.

Definitivamente, o Iesb não é a realização de um sonho. É apenas o resultado de uma carreira de muita dedicação à educação. Eda Machado é a atual reitora, e o filho do segundo casamento, Edson Machado Filho, atua como vice-reitor. Hoje, a instituição de ensino superior tem três câmpus, mais de 15 mil alunos, oferece 57 cursos de graduação presenciais e a distância, 40 cursos de pós-graduação Lato Sensu e dois programas de mestrado, além do ensino médio.

Os próximos planos da fundadora para o Iesb incluem a expansão do Câmpus Sul e a construção de uma nova unidade em Valparaíso. Eda declara que sempre foi apaixonada por crianças e quer incluí-las no Iesb por meio do ensino fundamental.

Foto:Oswaldo Reis/Esp.CB/D.APress

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